segunda-feira, 17 de junho de 2019

Relato de Parto



Parir é algo singular. Você pode ler mil textos sobre parto, mas o seu será único, diferente de todos os outros. Ora, óbvio. Você é única, seu corpo é único, suas experiências de vida e tudo o que você carrega em si, são únicos. Logo, seu parto será especialmente único.

Passei anos lendo, estudando, pesquisando sobre parto. Tudo o que envolve o universo materno sempre me interessou. Eu já conhecia termos técnicos, procedimentos ultrapassados, sabia sobre violência obstétrica, sabia sobre os benefícios do parto normal, sobre as intervenções possivelmente necessárias e as desnecessárias, a importância da cesárea, caso fosse preciso passar por uma, e continuava estudando, me informando, participando de grupos. Enfim.

Então, engravidei. Lágrimas de euforia, alegria sem fim! Munida de todas as informações que eu tinha, saí em busca do médico ou médica que me acompanharia nesta jornada. Eu já sabia que pelo plano de saúde seria bem difícil achar um médico humanizado, que me acolhesse de braços abertos na minha decisão de parir. Mesmo assim, resolvi tentar. Passei por uma cesaristona mercenária, uma cesarista com cara de poucos amigos, uma cesaristinha fofa e por uma que se dizia humanizada, mas na primeira consulta me disse que faria episiotomia (corte do períneo) se fosse necessário, mas que havia feito poucas vezes, em apenas 5% de suas pacientes. Ah, vá, doutora! Cortar 5% das pacientes, para mim, está bem longe de ser uma conduta humanizada. Então entendi que eu teria mesmo que desistir do plano de saúde e partir pro particular. E eu já sabia quem eu queria.

Resumidamente: eu conheci Rodrigo na época em que ele ainda estava na faculdade de medicina, por meio de outros amigos. Mas acabamos perdendo contato. Anos depois, descobri que ele tinha se formado e se tornado um excelente obstetra humanizado. Fiquei feliz! Entrei em contato, torcendo para que ainda tivesse espaço na agenda dele para o mês de março, que era o mês previsto para a chegada de Ravi. Tinha! Ufa! Agora eu tinha certeza de que iria parir do jeito que eu desejava. Além de Rodrigo, a equipe conta com enfermeiras obstétricas maravilhosas, competentes, gentis e fofas. E para completar, eu contratei a melhor doula do mundo, minha querida Maiana, uma mulher retada, de um sorrisão imenso, uma figuraça e profissional supercompetente!

Felizona de férias!
Tive uma gravidez maravilhosa. Desde o primeiro minuto em que eu soube que estava grávida, curti cada momento, pois acredito que o estado de espírito da mãe reflete muito no bem-estar do bebê. Não tive enjoos, comi bem, não fiz dieta de nada, bebi bastante água, trabalhei feliz. Cada exame era uma emoção e eu ficava ansiosa pelo próximo (exceto os que envolviam agulhas).

Chegou dezembro, entrei de férias, era verão. Com minha pancinha de 6 meses, aproveitei como pude. Viajei para a casa de meus pais em Ilhéus e passei um mês descansando, curtindo natal, réveillon, comendo bem, indo à praia, piscina, encontrando amigos, churrasco em família, muita música e Ravi pulando ao ritmo de axé e sendo embalado pelas músicas da playlist cult do vovô. Fizemos um chá de bebê muito fofo. Foi lindo, divertido, recheadinho de amor. Voltei para casa e para o trabalho plena.

Lendo o cartãozinho dos meus alunos. Muito amor!
A data prevista do parto era 26 de março. No início do mês, na semana do carnaval, perdi um pouco de tampão mucoso. Como eu sabia que o tampão podia sair muitas semanas antes e que ele se recompunha, não me alarmei. Decidi que trabalharia até o dia 18. Anderson tinha uma viagem marcada do dia 12 ao dia 15. Sabendo da possibilidade de Ravi chegar um pouco antes do previsto, Maiana me dizia: “Converse com Ravi, diga para ele esperar o papai voltar!”. Eu repetia o tempo todo: “Filho, só venha depois do dia 16!”. Na semana da viagem de Anderson, eu já estava superpesada, cansada. Fui ao médico no dia 13 e pedi um atestado para sair do trabalho já no dia seguinte. Eu estava sentindo que Ravi não ia esperar até o dia 26. No dia 14 entreguei o atestado no trabalho. Me despedi de meus aluninhos, que me deram muitos abraços, beijos e um cartão lindo cheio de desenhos e mensagens carinhosas. Me despedi de meus colegas e antes mesmo de terminar o meu expediente, senti que estava “vazando” água. Comecei a me sentir um pouco mal e resolvi ir embora.

Eu tinha certeza que Ravi ia chegar nos próximos dias. Anderson chegou dia 14 à noite. Avisei a minha mãe que estava tendo sinais de parto se aproximando e ela entrou no primeiro avião que apareceu e veio para Salvador no dia seguinte. No dia 15 continuei vazando um pouco de água. Mandei mensagens e fotos para o grupo da minha equipe de parto, composta por mim, Anderson, Rodrigo, Pati (a enfermeira) e Maiana. Todos disseram que não era a bolsa ainda, que a quantidade de líquido era pequena. Fiquei tranquila. À noite, lá pelas 22h, levantei da cama e senti muita água escorrendo. Agora eu tinha certeza que era a bolsa. Avisei no grupo. Pati disse que também tinha certeza e que estava vindo me ver. Ela chegou em minha casa em 20 minutos. Auscultou o bebê. Estava tudo bem. Fez um exame de toque: colo fininho, mas sem dilatação ainda. Estava tudo certo. Foi embora e pediu para avisar qualquer coisa pelo grupo.

Sábado de manhã, já com a bolsa rota.
Eu estava muito em paz. Sabia que estava muito perto de ver meu bebê. Estava pronta pro trabalho de parto. Passei a noite tendo pequenas cólicas que vinham em espaços de tempo diferentes. Fui monitorando por um aplicativo no celular que enviava as informações no grupo... 4 minutos, depois 6, depois 10, depois 6 de novo... até que Maiana disse: “Pare de monitorar e durma... descanse”. Então dormi. Acordei sem cólicas, sem nada. Era um sábado.

Passei o dia inteiro sem sentir absolutamente nada. No final da tarde, depois de 18 horas de bolsa rota, Rodrigo disse que eu teria que ir para o hospital, pois um dos exames havia dado positivo para uma bactéria do meu corpo (uma bactéria comum, como ele me explicou) e eu precisaria tomar antibiótico intravenoso. Para pessoas comuns, isso seria algo tranquilo. Mas não para uma pessoa com pânico de agulhas e acessos nas veias como eu. Chorei, argumentei, disse que não queria o acesso em meu braço, que isso me deixaria nervosa na hora do parto, que eu queria ficar em minha casa até chegar perto da hora de parir. Mas não teve conversa. Rodrigo disse que mesmo com chances muito pequenas de infecção (menos de 1%) eu não podia colocar Ravi em risco. Então eu tive que ir ao hospital.

Quem me recebeu foi dra. Adriana, obstetra parceira de trabalho de Rodrigo. Uma pessoa m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a! Um doce de ser humano! Fofa, meiga, alto-astral, gente boa MESMO. Ficamos conversando enquanto a papelada da internação era resolvida. Falei para ela do meu medo de agulha, ela me acalmou, disse que diante de tudo que ia acontecer, o acesso no braço passaria despercebido. Eu e Anderson fomos para o quarto. Adriana apareceu um tempo depois com as enfermeiras para colocar o acesso. Pensem num trabalho em equipe! Estiquei meu braço para um lado e o rosto para o outro. Enquanto uma enfermeira ficava em minha frente me dando apoio moral, Adriana ficava em meu ouvido atrás de mim quase que me hipnotizando com coisas do tipo “pense em um lugar bem lindo, com árvores verdes e flores do campo”, e duas outras enfermeiras colocavam o acesso. Enrolaram tudo com esparadrapo para eu não ver os tubos pendurados e pronto. Deu tudo certo!

Cardiotoco.
Depois que passou a tensão da agulha, acho que meu corpo relaxou e então comecei a ter contrações. Fiz o exame de cardiotoco e o gráfico mostrou contrações de verdade. Fiquei feliz. Ainda eram contrações fracas, mas já era alguma coisa. Rodrigo chegou por volta da meia noite. Adriana foi embora e então tentei dormir. Por volta das 2h as contrações começaram a ficar mais intensas. Rodrigo ficou monitorando. Liguei para Maiana e ela chegou cerca de uma hora depois. Por alguma razão, Patrícia, a enfermeira, não pôde me acompanhar, então em seu lugar veio Carol, também da equipe. Outro anjo que caiu do céu. Ficamos todos juntos enquanto meu trabalho de parto progredia: eu, Anderson, Rodrigo, Maiana e Carol. Vimos o sol nascer pela janela do oitavo andar do hospital. Eu já estava com dores bem intensas e Maiana passava as mãos em minhas costas em movimentos rápidos quando a contração chegava. Isso aliviava muito. Anderson me dava uvas, água e beijinhos. Carol trouxe uma bola e me levaram para o chuveiro. Nossa! Água quente é tudo de mais maravilhoso para aliviar as dores da contração. 


Vendo o sol nascer pela janela do hospital. Lá atrás, Rodrigo apenas aguardando.
Preciso deixar registrado aqui todo o carinho e profissionalismo de Maiana e Carol nesse momento. Elas ficaram ao meu lado incansavelmente, me segurando para fazer agachamentos, me molhando com o chuveirinho, me fazendo massagens, me dando todo o apoio físico e moral que eu precisava. Lembro que depois de uma hora no banheiro, preocupada com a água do planeta, cansada, olhei para elas duas e disse: “Eu amo vocês! Vocês são maravilhosas, incríveis!”. (Maiana me disse que a água do hospital era para isso mesmo, que eu não me preocupasse com o desperdício.) 
Também me trouxeram um aparelho chamado cavalinho para ajudar na descida do bebê, uma espécie de cadeira de balanço com apoio na frente para apoiar a cabeça. E Rodrigo amarrou um lençol na porta do banheiro para servir de apoio para eu me agachar nas contrações.

Verbalizei e respirei muito durante as contrações. Cada contração era acompanhada de longos “aaaaaaaahhh” e “ooooooohhh”. Me lembro que Maiana me dizia nos nossos encontros em casa que abrir a boca e deixar o ar sair ajudava a não tensionar o corpo. Então assim eu fiz.

Depois de muitas horas de contrações, duas idas ao chuveiro e muitos agachamentos, quando a verbalização começou a ficar mais alta e mais intensa, Rodrigo pediu minha autorização para fazer um toque. 8 cm. Então ele disse: “Acho que está na hora de a gente descer para a sala de parto”. E lá fomos nós. Era um pouco mais de meio dia. Minha irmã, Tati, tinha chegado e foi com a gente.

Cavalinho



Agachamentos.
Muito apoio e amor.
A sala de parto estava ocupada (só há uma no hospital), então fomos para a sala cirúrgica ao lado. Não me importei. Àquela altura, eu queria parir, não importava onde. Eu queria acabar com as dores. Já estava cansada. A sala era enorme, espaçosa, então me senti bem lá. Anderson ligou uma playlist super fofa, com músicas lindinhas para a chegada de Ravi. Rodrigo me ofereceu a banqueta para sentar. Anderson sentou atrás de mim, me apoiando. Nesse momento as dores já eram muito intensas. Fiquei algumas horas tendo contrações, comi frutas, bebi água. Vale registrar que durante todas essas horas, Rodrigo e Carol auscultavam o bebê para nos certificarmos de que estava tudo bem. E ele estava sempre ótimo.

Depois de um tempo, já exausta, perguntei a Rodrigo: “Quanto tempo mais você acha que esse trabalho de parto vai durar?”. Ele me disse: “Mais de uma hora”. Então eu falei: “Quero analgesia. Já estou muito cansada”. E respeitaram a minha decisão. O anestesista veio. Sabendo do meu medo de agulhas, Rodrigo ficou em minha frente, para me segurar e assegurar que eu não me mexeria. Eu estava tão cansada que não me importei com a agulhada. Na verdade, a dor da agulha foi quase nada perto das contrações que eu estava tendo. Assim que acabou a analgesia, para a minha surpresa, Rodrigo olhou para mim e disse:“Agora você vai dormir”.

Eu: “Que???”
Carol e Maiana incansáveis.
Ele: “Isso mesmo... você precisa descansar. Vai lhe fazer bem”.

Então deitei na maca e me cobriram com um cobertor bem quentinho. Dormi o sono dos deuses. Dormi muito bem, profundamente, das 15h às 16h. 


Aquela soneca revigorante!


Quando acordei, era outra pessoa. Estava super disposta, cheia de energia. Disse a todo mundo que eu podia ir para uma rave! Então Maiana e Carol disseram que eu tinha que requebrar e descer até o chão pra coisa engrenar. E fizeram o que? Colocaram um pagodão de Parangolé e todo mundo começou a dançar!

“Chegou o mulherão da zorra que você respeita/ Tá louca, tá solteira, tá pra onda/ Poderosa, cheirosa, sabe o que quer/ Ninguém segura essa metralhadora de mulher/ Deixa ela passar/ Maravilhosa/ Abaixa que é tiro”

Eu tava sem dor, me sentindo mesmo um mulherão da zorra. Tinha aguentado já não sei quantas horas de trabalho de parto. Eu só sabia de uma coisa: eu queria parir.

Aos poucos a dor foi voltando. Comecei a ficar com medo de Ravi não descer e me levarem para uma cesárea. Mas todos continuavam me encorajando. Nesse momento, uma sucessão de fatores aconteceu. Primeiro, parecia que o TP tinha dado uma estagnada. Ouvi Rodrigo dizer: “Não tem por que ele não sair. Já passou do osso da bacia”. Em seguida, para me ajudar, Maiana fez um movimento com o rebozo, sacodindo meu quadril. Isso fez toda a diferença. Parece que Ravi deu uma chacoalhada e decidiu descer mais. Daí, Rodrigo me sugeriu fazer puxo guiado. Fiquei muito frustrada, eu não estava com vontade de fazer força, mas decidi tentar na esperança de que isso contribuísse para a evolução do parto. Rodrigo amarrou um lençol na cintura dele e me mandou puxá-lo fazendo força ao mesmo tempo. Comecei a soltar gritos guturais. Acho que todo o hospital até o último andar podia me ouvir. Mas nada de bebê sair. Então me lembro da hora exata em que senti vontade de empurrar. Avisei a todos: “Agora eu estou com vontade de fazer força!”. E alguém disse: “Agora ele nasce!”. Continuei fazendo força, levantando, sentando de volta na banqueta, me apoiando em Rodrigo. Eu estava morrendo de calor e lembro que gritei: “Eu quero ficar nuaaaaa!” e arranquei o roupãozinho do hospital. A lôka!



Força!


Já era perto das 20h. Eu estava exausta de novo. Falei para Rodrigo que queria outra analgesia. Ele disse: “Não adianta. A analgesia vai demorar 15 minutos para fazer efeito. Em 15 minutos o seu filho já nasceu”. Quando ouvi isso, parece que um outro ser tomou conta de mim. Os gritos guturais cessaram. Olhei para Rodrigo e disse: “Estende um lençol aqui no chão”. Ele prontamente puxou o lençol limpo que estava na maca e colocou no chão. Pedi: “Abre mais”. Ele abriu o lençol.

Um silêncio imenso tomou conta do lugar. Apenas as musiquinhas fofas da playlist tocavam. Fui tomada por uma total racionalidade. Eu estava consciente de tudo, de todos que estavam ali, da música que tocava. Lembro de ter pensado “essa é uma música linda para Ravi nascer”. Coincidentemente, como um sinal do universo, a música era “Here comes the sun” dos Beatles, que em Português significa “Aí vem o Sol”. Ravi, em sânscrito, significa “o Sol”. Era, sem dúvidas, um sinal da deusa dos partos. Meu Sol estava chegando!

Fiquei sentada na banqueta, fazendo força, em silêncio absoluto. Apenas abri a boca em um momento e pedi água a Anderson. Continuei ali, comigo mesma, fazendo força. Eu estava muito consciente de mim, de meu corpo, de minha dor, de minha respiração. Coloquei a mão lá embaixo e senti a pontinha da cabeça de Ravi. Maiana sussurrou: “É o seu filho... faça um carinho nele”. Fiquei alisando aquela pontinha de cabeça e continuei fazendo força. Em silêncio. Senti o círculo de fogo aumentando. Era uma dor intensa, quente. Eu respirava e alisava a cabeça que despontava cada vez mais. Nada mais podia me parar. Nada mais podia me impedir. Eu estava parindo. Meu filho estava chegando. Então, quando senti que era chegada a hora, me levantei, fiquei de pé em cima daquele lençol. Respirei bem fundo e fiz uma super força. A última força. Vi que Rodrigo colocou as duas mãos abaixo de mim para amparar Ravi, mas ele nem sequer chegou a tocá-lo. Ouvi-o dizer: “Segure seu filho!!! Segure seu filho!!!”. E então Ravi escorregou para baixo de uma vez, e eu agarrei meu filho, bem em meus braços, segurei-o com força e o trouxe para o meu colo. 

O nosso primeiro encontro!
Sentada de volta na banqueta, com meu bebê chorando em meu colo, eu apenas repetia: “Oi, meu amor! Oi, meu amor!”, enquanto Anderson chorava copiosamente em meu ombro dizendo: “Meu filho! Meu filho!”. Colocaram uma toquinha na sua cabeça e enrolaram um cobertor quentinho nele. Fiquei segurando meu pacotinho. Me deram uma injeção na coxa, acho que era ocitocina. Rodrigo disse depois que me avisou, mas no êxtase do momento, não ouvi, nem vi nada. Senti a picada e só. Logo em seguida, a placenta saiu. Apenas escorregou, eu nem sequer senti contração.

E assim foi o meu primeiro encontro com o maior amor de minha vida. Estávamos ali, eu, ele, aquele menininho pequeno, chorando forte, quentinho, encostado em meu peito. O cheiro que exalava dele era o cheiro mais doce, mais delicioso desse mundo! Eu queria sentir aquele cheirinho para o resto de minha vida! 

A pediatra, Dra. R.L. (tirei o nome da infeliz para evitar a fadiga), pedia que eu o entregasse a ela para colocá-lo no berço aquecido. Pedi que me deixasse ficar com ele mais um tempo. Ela dizia que a sala estava fria, que ele teria hipotermia. Mas ele estava enrolado em um cobertor aquecido e de toca na cabeça. Então pedi pra ela esperar um pouco. A mulher ficou visivelmente chateada.

Depois de um tempinho, entreguei-o à enfermeira. Ravi foi pesado, recebeu a vitamina K com a minha autorização. Não deixei pingarem nitrato de prata em seus olhos. Carimbaram seu pezinho no braço do papai. Me deram aquele pacotinho lindo de toquinha e coloquei-o em meu peito. Ele pegou de primeira, certinho, danadinho! Mamou por um bom tempo. Foi lindo!


Primeira foto em família!
Em seguida, depois que todos haviam saído da sala, fiquei só com Anderson e uma enfermeira que insistia em levar Ravi para ser medido. Eu dizia que não, que esperasse, que não queria me separar dele. Ela insistia que a pediatra estava esperando, que ele precisava ser medido, crânio, tronco, para poder ser liberado pro quarto. Me prometeu que seriam só 10 minutos. Relutante, cansada, cheia de sentimentos pulando no peito, hormônios pulando no corpo, e sem saída, entreguei meu pacotinho e pedi a Anderson para ir junto.

Me levaram para o lado de fora do centro cirúrgico, deitada na maca, para aguardar meu filhote. Então a pediatra mal-humorada voltou e me disse que Ravi estava com uma oscilação respiratória, com taquipneia, e que teria que ficar em observação. Mas não contente em dar essa notícia triste para alguém que tinha acabado de parir depois de 18 horas de um trabalho de parto intenso, e de passar por um turbilhão de emoções e se encontrava totalmente vulnerável em cima de uma maca, ela ainda complementou com a seguinte frase: “Se você tivesse me dado ele na hora que eu pedi para colocar no berço aquecido, isso não teria acontecido”. Ou seja. Ela me culpou! Ela sabia que eu estava vulnerável e ficaria arrasada com a notícia e ainda assim ela quis me fazer sentir pior! Uma péssima profissional, desumana e antiética! Meu filho nasceu bem, respirando normalmente. Colocaram-no em meu colo, aquecido, e logo depois ele mamou em meu peito por cerca de meia hora! Bebês com taquipneia não conseguem mamar tranquilamente como ele mamou! Calminho, sereno e respirando bonitinho. Foi depois que tiraram ele de mim que sua respiração oscilou. 

Fiquei sabendo depois por diversos profissionais que me acompanharam durante o trabalho de parto que o berçário para onde o levaram é o Polo Norte de tão frio, e que o número de bebês que ficam taquipneicos neste hospital é altíssimo! E que uns dias depois de meu parto, um pai deu a louca e queria chutar a porta do berçário (onde qualquer pai ou familiar é proibido de entrar com o bebê) pois disseram que seu filho estava taquipneico. Me contaram que depois de ameaçar entrar lá de qualquer jeito, deixaram-no entrar e colocaram o bebê em seu colo, onde ele ficou aquecidinho e a respiração logo voltou ao normal. Ou seja: a culpa não foi minha! A culpa foi desses protocolos hospitalares ridículos e desumanos, que separam mães de seus bebês logo após o nascimento para avaliações frias. Quando eu soube de todas essas informações, dias depois de ter saído do hospital, chorei de tristeza e fui tomada por um enorme sentimento de impotência. Eu também devia ter chutado aquela porta de berçário! Mas mesmo consciente de que estava sofrendo uma violência obstétrica e que queria mandar aquela médica para o inferno, eu apenas me calei, pois meu filho recém-nascido estava sob os cuidados daquela mulher.

Ravi ficou em observação em um berço aquecido dentro do tal berçário gelado e como a sua respiração não normalizou em 4 horas, levaram-no à UTI neonatal para passar a noite sendo monitorado. Eu sabia que não era nada grave, mas estava arrasada. No dia seguinte, passei o dia inteiro indo à UTI para vê-lo. UTI neonatal é uma experiência que não desejo a ninguém. Tantos bebês pequenininhos e já tendo que lutar pela vida. Agradeci muito a Deus por meu filho ter apenas uma questão respiratória comum, que em pouco tempo estaria bem e sairia dali. Eu não podia dar meu peito, pois ele não conseguiria mamar com a respiração rápida como estava. Então, com muita dor no coração, mas sabendo que era o certo a se fazer, autorizei o leite artificial via sonda, para ele ficar alimentado.

Amamentando meu pequeno na UTI neonatal.
A cada visita à UTI eu pedia informações sobre sua respiração. Aos poucos ela estava se estabilizando. Até que me ligaram dizendo que eu poderia amamenta-lo, pois a respiração estava mais tranquila. Desci correndo, muito feliz. Colocar meu neném de novo em meu peito era tudo o que eu mais queria! Chorei de emoção quando ele começou a mamar. Eu sabia que logo, logo ele estaria fora dali. E depois de uma maratona acordando de 3 em 3 horas madrugada adentro para dar o peito a Ravi, na manhã seguinte a pediatra (uma maravilhosa, chamada Ana Paula) lhe deu alta! Aaaaah como eu chorei!!! Chorei dentro da UTI, enxugando as lágrimas no roupão do hospital. Troquei minha primeira fraldinha! Vesti sua primeira roupinha! Que bom vê-lo livre de fios e agulhas! Encontrei Anderson no elevador indo para a UTI. Ele ficou surpreso e mega feliz. E assim, os três juntinhos subiram pelo elevador. Papai sorrindo, mamãe chorando e Ravi dormindo.

Passamos uma tarde deliciosa juntos naquele quarto de hospital. Meus pais e minha irmã chegaram e ali meu coração se acalmou. Estava tudo completo! No dia seguinte recebemos alta do hospital e fomos para casa. 


Finalmente no quarto com mamãe e papai!

Prontos para deixar o hospital e ir para nossa casinha!


Hoje meu amor completa 3 meses. Estamos ótimos, muito felizes! Ravi mama igual um bezerrinho, está lindo, gordinho e sereno. Sempre que ele completa mais um mês, revivo toda a história do meu parto. Foi um dia lindo, intenso, visceral e inesquecível. Saber que meu filho veio ao mundo por minhas próprias mãos me enche de orgulho e felicidade. Vê-lo crescer, mamar, sorrir, mexer as perninhas e os bracinhos derrete meu coração. 


Amor da minha vida!


E essa foi a história da chegada do meu filho, meu bem mais precioso, meu grande tesouro! O meu Sol Ravi!



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Meu Deus... vou ter um filho.




Esse pensamento atravessa a minha mente algumas vezes por dia desde os últimos 7 meses.
As pessoas me perguntam diariamente: “Como você está?”
“Estou ótima!” – respondo sempre.
É verdade. Estou ótima! Como não estar? Vou ter um filho.
No começo as pessoas me perguntavam: “Ele já tem enxoval?”
E eu dizia: “Não... ele só tem livros!” – e eu dava risada (Prioridades, né?). E assim foi por uns 5 meses, até que comecei a comprar coisinhas.
A mãe (a minha, não eu) sempre desesperada: “Mas não tem nada! O menino vai nascer e vai ficar nu!”

“Qual o nome dele?”
“Ravi!”
“Que lindo! Diferente! Adorei! E quando ele vai nascer?”
“Quando ele quiser!”
“Ah, vai ser parto normal?”
“Com certeza!”

“Você tá sentindo muito enjoo?”
“Nenhum!”
“Puxa, que sortuda!”
“Você vai trabalhar até quando?”
“Até quando eu conseguir!”

“Já comprou móveis?”
“Ainda não...”
A mãe dizia: “Meu Deus! Não tem móveis! Ele vai dormir onde?”
“Em meu colo, em minha cama, em um bercinho portátil...” – eu respondia.
“E se o seu médico viajar?”
“Ele não vai.”
“Tem perigo dele nascer no carnaval?”
“Por que perigo? Não entendi...”
(Mãe é sempre a que fica MAIS angustiada né? Deve estar no manual das avós. Haja paciência, meu Senhor.)

Compramos móveis, finalmente, às vésperas de completar 34 semanas (7 pra 8 meses, nunca sei direito contar em meses). Berço e cômoda para pronta entrega, mas armário só mais tarde. Talvez até ele já tenha nascido quando o armário chegar. O pai (o meu, não o do bebê) repetindo sem parar na loja: “Comeu mosca... se passou no tempo...”
“Mas ele vai sobreviver no início da vida sem o armário... eu garanto!”

Hoje um moço veio em minha casa e montou o berço e a cômoda.
Sentei na poltrona que uma amiga queridona me repassou, onde ela amamentou o filho incrível dela por 2 anos. Olhei ao redor... aquele berço, aquela cômoda... um cheiro gostoso de móveis novos. Medi todas as paredes, refiz a configuração dos móveis na mente para quando chegar o tal armário (e ainda tem uma cama). Peguei 2 enfeitinhos que estavam guardados no meu armário esperando para ornamentar o quarto. Coloquei lá... sentei de novo... e olhei, olhei... Aquelas letrinhas em cima da cômoda dizendo RAVI.

Como posso não estar ótima? Eu tenho o SOL brilhando dentro de mim. Ele se remexe no ritmo ragatanga todo santo dia, me lembrando que ele está em mim mas já independe de minhas vontades. Ele se mexe quando quer, chuta minhas costelas, se encosta todo do lado direito até eu empurrá-lo de volta dizendo: “Calma aí, menino! Assim dói!”. E daqui a menos de 2 meses ele vai estar preenchendo tudo. Tudo isso. Esse berço, essa cômoda, esse armário que ainda não chegou, essa poltrona, os meus braços, as minhas tetas, o meu coração. Eu não consigo mais nem pensar em uma brecha aberta na minha vida nesse momento porque a sensação que eu tenho é que não haverá brecha logo mais.

As pessoas seguem me fazendo tantas perguntas para as quais eu não tenho resposta. Agora eu tenho respondido sempre a mesma coisa: “Eu vou deixar fluir...”

Como posso saber que dia exatamente ele vai querer nascer? Onde ele vai dormir? De quantas em quantas horas eu vou amamentar? Se vou dar-lhe todas as vacinas? Eu nem o conheço ainda. Eu nem sei qual é a cor do cabelo dele, o tamanho dos dedos dos pés, se ele vai chorar ou dormir ou contemplar a vida a noite toda, se vai gostar das cores que escolhi pro quarto dele. Eu vou deixar fluir. Eu vou ser mãe. Ele vai ser filho. A gente vai se entendendo aí nessa estrada. Eu vou escutar, sentir, cheirar, lamber, chorar, rir, na medida do possível, quando for necessário, em “livre demanda” como diz o atual clichê amamentístico. Porque afinal... como posso ter respostas para coisas que eu nunca experimentei?

Por enquanto eu só escuto músicas e choro copiosamente em todas (sem brincadeira) porque cada pedacinho que relata algum amor profundo e inenarrável me faz pensar nesse bacuri dançarino e a coisa vem sem controle até transbordar. É muito doido.

E penso que tudo o que ele precisa de verdade ele já tem. Mãe, pai, amor até dizer chega, um lar de verdade, 2 peitos nervosos mas ansiosos pra amamentar, um gato brincalhão, uns livros, uns paninhos... uma cúpula de proteção invisível, mas bem sólida, de avós e tios e tias e tios-avós... mas totalmente aberta para aventuras e descobertas eternas. E muito colo para voltar das quedas e muito beijo para afagar a alma.

As perguntas não me incomodam. Juro. De forma alguma. Entendo que perguntas para grávidas são limitadas, a gente não tem muito para onde ir além dos enjôos e móveis e bodies e peitos e leite. E também nunca me incomodou as pessoas pegarem em minha barriga. Ao contrário. Eu deixo, eu adoro. Meu filho é querido, acariciado e desde já está entendendo que o bom dessa vida é ter gente perto da gente, é contato físico, beijo, abraço. Também temos muita sorte nesse quesito, pois todos nos respeitam, respeitam nosso espaço, pedem permissão. “Posso pegar na barriga?”, “Pode! Claro!”.
Também não romantizo o parto, nem a amamentação, nem o pós-parto. Sei que é loucura. Sei que pode haver um trecho meio obscuro no meio do caminho que eu vou ter que atravessar. Mas eu sei que ele existe e isso basta para eu entender que não há outra alternativa além de encarar.

Daí é isso... tô aqui buxuda, pesada, com os pés doendo. Mas me sentindo plena, tranquila, certa de que tudo está no lugar certo (exceto a cômoda que ainda vai para a outra parede do quarto). Minha doula outro dia disse algo que eu achei muito interessante (Será que foi ela mesmo? Progesterona faz nossa memória ir pro saco). Ela falou: “Algumas mulheres na hora do parto gritam ‘Eu vou morreeeerrrr!’... e de fato elas vão! Elas vão morrer para em seu lugar renascer uma outra mulher. Morre a mulher solteira, sem filhos, e nasce uma mãe, uma pessoa totalmente nova e diferente. É preciso morrer para deixar o novo nascer”.

Sendo assim, termino esse mix de pensamentos meio desconexos embebidos em hormônios lhes dizendo: estou pronta e ansiosa e muito disposta a morrer para logo em seguida renascer nessa aventura doida que me aguarda chamada maternidade.

Eu vou ter um filho. E eu não poderia estar mais nada além de ótima!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Faça terapia



Estava relendo meus textos.

Engraçado. A gente muda, né? Ainda bem.

Resolvi fazer terapia. Vou contar.

Em 2015 eu estava frustrada profissionalmente. Bastante. Chegou um momento em que comecei a me questionar sem parar se era aquilo mesmo que eu queria. Não era. Algo estava fora do lugar.
Era eu. Eu estava fora do lugar.

Saí em busca de outro emprego, algo que tivesse mais a minha cara, algo que me motivasse a acordar e sair de casa. Acho que o problema não era nem a minha profissão em si, e sim o lugar onde eu estava trabalhando, o clima, a falta de perspectivas, a falta de desafios, as pessoas que me rodeavam. Esse lance de energia, sabe? Rola muito comigo.

Busquei e consegui. Foquei no inglês que é minha segunda língua e com a qual eu sempre amei trabalhar. Foquei em crianças, com quem sempre tive conexão, acho que por carregar uma dentro do peito. Pedi para ser demitida do meu antigo emprego (nunca vou esquecer a cara de tristezinha do rapaz que me entregou a carta de demissão, colocando a mão em meu ombro e me perguntando se “tá tudo bem”. Tá, meu querido. Tá tudo ótimo!). Chorei. Abracei alguns. Parti.

E entrei num universo infantil bilíngue. Cada dia um novo dia. Cada dia um novo desafio. Uma mistura de emoções que acho que só entende quem tem criança perto. Imagina eu, então, verde nessa nova vida, com 18 pequeninos entrando numa escola bilíngue, 11 deles pela primeira vez. Três, quatro anos de idade e caindo de paraquedas numa sala colorida, com duas professoras falando outra língua. Foi um mês de enxugação de lágrimas, colo e afago. Eles estavam com medo, eu estava com medo. Mas caminhamos juntos. Não sei se era eu quem segurava as mãos deles ou se eram eles que seguravam as minhas. Só sei que deu muito certo.

Um ano de alegria e risada. Coisa mais linda de se viver. Mãozinhas aprendendo a usar lápis e tesouras, um mundo de descobertas. Eu descobria tudo junto também. Litros de tinta guache e cola. Quilos de papel colorido e purpurina. Nunca imaginei que rolo de papel higiênico tivesse tantas utilidades!  E no fim do ano, vejam só... todo mundo entendendo aquela língua maluca!

Acabou-se o primeiro ano. Chorei muito. Eu fui feliz demais.

Chegou o ano seguinte. Nova turma. Novos serezinhos.

Cara...

Os desafios foram muito grandes. Eu não estava pronta para aquilo. Levei uns tapas na cara, da vida e de crianças também, e foram esses últimos aí que me levaram pra terapia. Como lidar? Como conseguir me colocar no lugar do adulto e não deixar minhas emoções tomarem conta na hora do conflito? Lá estava eu aprendendo de novo com eles. Mas eu precisava de ajuda, senão não conseguiria ajudá-los.

Muita terapia. Muitas lágrimas. Todo aquele processo de buscar dentro de si as respostas que você já tem, mas que só enxerga quando o terapeuta te conduz até o interruptor. Muito louco.

O processo terapêutico me ensinou coisas muito úteis. No fim das contas, fui em busca de ajuda para resolver uma questão e resolvi muitas (psicólogos, vocês são foda).

Agora, relendo meus textos, eu vejo algumas coisas que eu consertei dentro de mim. Não totalmente, porque é difícil, né? Sempre ficam resquícios do que acompanhou a gente a vida inteira. Mas acho que o importante é que agora eu tô vivendo pro agora. Parei com a noia. Parei com o lance de viver exclusivamente com o pensamento no futuro... até porque o meu agora é o futuro de três anos atrás quando escrevi aqueles textos lá. Se eu não viver agora, eu vou viver quando? Hoje eu doso grandes pitadas do aqui e agora com pitadas comedidas e responsáveis para um logo ali mais adiante.

É isso. Acho que foi essa a mudança principal. Fora outras coisas importantes que vieram no pacote como parar de me importar muito com a opinião alheia (mas de vez em quando ainda derrapo nessa). Parei de me pré-ocupar demais. Aceitar o que eu tenho e quem eu sou foi um aprendizado enorme e libertador. E sigo assim.

Aprendi a controlar mais as minhas emoções e me conectar com as emoções das crianças. Na verdade, esse exercício é diário. Cada criança carrega um mundo em si. E esse ano voltei a ficar com a turma de dois anos atrás, a primeira de todas. Estão grandes e perdendo os dentes. Lindos e amorosos e ainda mais espertos que antes. Eu sou só admiração. (Derrubei muitas lágrimas também quando acabou o ano mega desafiador... mas foram lágrimas carregadas de muitos sentimentos diferentes.)

Agradeço às crianças que me levaram à essa busca de respostas. Crianças também são um enoooorme exercício de auto-conhecimento, auto-controle, amor e equilíbrio. Conviver com elas faz você refletir muito sobre a criança que você foi e o que seus pais fizeram por/com você. Terapeutas-mirins.

Em breve volto. Tenho muito a relatar. Esse tempo de silêncio foi um tempo rico em emoções.

Mas o amor, dentre todas, prepondera.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

As três perguntas essenciais



Antes de dizer algo a alguém, se faça essas três perguntas.

Eu quero falar?
Eu posso falar?
Eu devo falar?

Pratiquemos!
Feliz 2017, para ser mais amooooooooor!

segunda-feira, 16 de março de 2015

Meu universo de mil versos



Será o universo em mim maior do que este cá fora?

Em meu universo, uno os versos alheios, vivo-os como se meus fossem. Sofro, rio, reflito, sinto calafrios, tenho insônias. No meu unir-versos confundo os meus com os demais, misturo, crio. Se amo, então, oh céus.

Na minha empatia, fico tão mais humana visto que visto tantas fantasias. Só sei ser assim. Tem gente que não entende. Acha-me sentimentalóide, infantil, até. Minto se disser que não ligo. Não ligo. Estou em constante treinamento.

O que mais levarei da vida, senão o que sinto? Como aprender a ser humano, escolher qual deles quero ser? Como estender uma mão, oferecer palavras, se ambas estiverem vazias?

Como um professor, me alimento de sentimentos, para ensiná-los a quem precisar. Mas estou sempre mais a aprender do que a ensinar, que absorver é tão mais fácil que expressar.

Olho ao redor, vejo tanta gente eloquente, sinto-me um respingo d'água no Pacífico. Precisaria mudar? Encher-me de discursos profundos sobre tudo o que há? Prefiro ficar quietinha.  Estou em constante treinamento.

Tenho um emaranhado de outros em mim. Eu sinto por eles, sinto muito. Porque vejo-me neles e sei que ali bem poderia estar. Se há reciprocidade, não sei. Eu só sei que só sei ser assim. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Presente ano novo




Terminou 2014.

Foi tanta mistura de tudo. Era alegria vazando, amizade forte, abraço apertado, beijo estalado. O amor esteve tão presente.

Começou um novo ano.

Um frio na espinha. Tantas expectativas e um medo repentino. Não queria sentir medo. Medo trava. Tudo pode mudar. De uma vez, em cada seara, um pingo de novidade brotou. Pode ser bom? Será ruim? Quem sabe?

Não sei o que me reservaram neste 2015. Ainda me olham com cara de espanto quando lhes digo minha idade. Eu cresço por dentro. Mas por fora, tem gente me achando ainda muito menina.

E trago ao lado gente de tantas histórias. São tantos mundos no meu e eu em todos eles.

Comecei o ano sorrindo, mas já chorei também. De tristeza. É que sentimento a gente não consegue controlar todos os dias. Tem coisa que transborda. Chorar faz tanto bem. Há tempos eu não chorava assim. Alivia.

Serei, certamente, positiva no novo ano. Que energia é coisa que você joga e volta. Não quero nada pesado, nada velho, nada infeliz. Serei a menina que enxergam quando me veem.

Vou ser mais firme em minhas orações. Quando se deseja forte, o universo entende. As coisas vêm.
No raio de minha fé manterei quem está na mesma sintonia. Os demais se afastam, pois meu escudo dá recados silenciosos, e eles entendem.

Vou prestigiar os santos. Também os orixás. Não sei quem é quem. Aqui é tudo uma coisa só. Mas sei que na Bahia eles escutam melhor. O eco do mar fala mais alto que nos outros lugares.

Vou dançar, que dançar me alegra. Vou comer, que comer me dá uma felicidade imensa. Vou amar sem nenhuma restrição, que pro amor não tem de haver barreiras.

Quero sentir a vida acontecendo, pois pensar demais do que ainda não existe é perda de tempo. O grande lance é ser feliz agora, que essa é a hora.

Não quero ser julgada, subjugada, nada de repressão moral. Me deixa. Sou dona de mim, daquilo que conquisto e daquilo que me dão. Se o problema é meu, eu resolvo. Me ajude se puder e, se não puder, se afaste em silêncio.

Quero uma chuva de sementes boas, sem saber qual flor nascerá de cada uma, porque o gostoso é ter surpresa na vida. E não vou colher, pois flor que se colhe logo morre. Vou deixá-las crescer, regá-las, admirá-las e usar suas cores para fazer pinturas abstratas de amor em mim.

Pode vir, 2015.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Da alegria de dançar



Fiz balé por cinco anos, dos 7 aos 12 e estendi pelo jazz até os 15, quando parei de vez. Durante os últimos 15 anos me aventurei por diferentes exercícios físicos como musculação, patinação artística, dança de salão, circo, esgrima, yoga... mas nenhum deles me deixou mais gostosa ou disposta ou feliz (tirando a dança de salão que me deixou apenas muito feliz). Então, este ano, aos 30, decidi voltar para o balé. Entrei numa aula de balé fitness, uma mistura de balé com ginástica localizada. E estava bem feliz. Então a escola abriu uma turma de balé iniciante adulto e eu me joguei. Foi a escolha mais acertada do ano.

Fazer uma atividade que lhe dá prazer e alegria é realmente maravilhoso. Entrei com toda a humildade permitida pelos meus dez quilos de ferrugem e, aos poucos, fui percebendo que o corpo se lembrava de algumas coisas.

Tenho uma colega fofa chamada Thelma, uma senhora cuja filha bailarina a convenceu de entrar na dança. Tem também Victor, um menino lindo que nunca fez balé, mas tem tanta sede de aprender que chegou a me dizer que "seria capaz de ficar o dia inteiro repetindo esses exercícios até conseguir". E tem Débora, uma menina bonita que deve ter mais ou menos a minha idade e, como eu, é uma regressa. Sem esquecer, claro, da professora Marília, linda e poderosa, com um astral fenomenal, que parece ter dentro do peito um saco infinito de alegria de ensinar. Professor que ensina com alegria é o que há!

Pois então, dois meses depois de retornar ao balé, Marília me convidou para participar do festival que seria no último fim de semana de novembro. Fiquei meio na dúvida, me bateu uma insegurança. O espetáculo seria O Mágico de Oz. Como poderia eu, depois de 15 anos, subir no palco e dançar de novo? Marília disse que eu seria capaz, que me colocaria em um grupo de adolescentes que estava ensaiando uma coreografia linda de "floresta". Pensei: perfeito! Nada melhor do que voltar a dançar no palco com pessoas que têm a metade de minha idade e ainda fazendo o papel de uma árvore! =P

No dia em que cheguei pensando em recusar o convite, Marília me olhou com um sorrisão e disse: "Que bom que você chegou! Não veio ninguém da sua turma, então vou lhe ensinar a coreografia!". E desisti de desistir.

Comecei a sair mais cedo do trabalho um dia da semana para conseguir ensaiar com o grupo inteiro. Eram pessoinhas realmente novas. Dei uma avaliada geral e conclui que a pessoa mais velha depois de mim devia ter uns 18 anos. Mas confesso que ali, no meio delas, meio que aproveitei a minha cara de menina e me camuflei de adolescente. Ninguém ousou duvidar. Também super disfarcei a minha dificuldade em executar alguns movimentos e fiquei aliviada quando descobri que, assim como eu, outras pessoas estavam ficando com os joelhos roxos por causa de alguns passos da coreografia em que era necessário ajoelhar-se. Não era velhice, eram só os ossos salientes.

A coreografia era fofa. Nada muito complicado como nas coreografias estupendas do programa Dance Moms que eu estou acostumada a assistir. Mas também nada bobo. Apenas o ideal para uma véia enferrujada.

Lá para as tantas, após alguns dias de ensaio, um grupo de zumba chamou Marília para ver a coreografia. Fui junto. Eram mulheres mais velhas, algumas da minha idade. A coreografia era tão enérgica que me cativou e eu quis muito dançar. O professor topou, Marília incentivou, e lá estava eu no meio da zumba, sem nunca ter feito uma aula sequer.

Os ensaios prosseguiram, se intensificaram, conheci os outros grupos, os demais alunos, e então descobri que estava em uma escola de dança incrível, com bailarinos incríveis e fiquei extremamente feliz. As coreografias eram lindas, os bailarinos excelentes. A cada salto e pirueta meus olhos brilhavam mais. Acho que ainda não é tarde demais para eu conseguir fazer um salto ou pirueta daqueles. Eu espero que não seja.

Pensei em não convidar ninguém para ver o festival além de meu namorado e minha irmã. Mas depois mudei de ideia. Convidei os amigos mais próximos. E lá fui eu com minha sacola cheia de maquiagem e gel de cabelo para o dia do festival.

Reviver a atmosfera de um festival de balé me fez lembrar de tantas coisas boas da infância, me deixou tão preenchida que eu tive a certeza de que jamais deixaria de fazer o que me faz feliz. Aquela deliciosa confusão nos camarins, os coques, os cabelos esticados com quilos de gel, as sapatilhas de fita, as maquiagens, o silêncio nas coxias, o frio na barriga segundos antes de entrar no palco, as luzes, os aplausos, tudo isso me fez sentir mais viva e completa. Ver a empolgação das crianças, os personagens da história com figurinos e maquiagem tão impecáveis, meio que me fez ser criança de novo. Dorothy, o Leão, o Homem de Lata, o Espantalho, foram me levando por aquele mundo de fantasia. Tudo muito lúdico, muito leve, muito lindo.

Quando terminou o festival e as cortinas se fecharam, é óbvio que chorei. Fui para o camarim me trocar, deixei todo mundo sair primeiro e fiquei por lá, ainda digerindo a emoção. Quando saí, encontrei Marília na porta e ela me perguntou com aquele sorriso de sempre: "E então? Como foi?". "Chorei de emoção!" respondi. "Claro! Foi o seu retorno, né?", ela disse, me compreendendo. Dei-lhe um abraço apertado e agradeci por ter me encaixado de alguma forma naquilo tudo. Ela me agradeceu por ter aceitado suas propostas.

Como não podia deixar de ser, quando cheguei do lado de fora, meus amigos em coro me aplaudiram e gritaram. Amigo é tudo nessa vida. Ganhei muito beijo, muito abraço, muitos parabéns e lindas rosas do namorado. E por mais que meu desempenho não tenha sido essa coisa toda, é claro que eles, como bons melhores amigos, disseram que fui a pessoa mais brilhante daquele palco. Faz parte.

Estou realizada, estou mais disposta, estou mais feliz. Eu já tinha me esquecido do quanto é importante fazer coisas que realmente nos fazem bem. Viver por viver na rotina de todos os dias é chato. Viver e fazer algo que lhe preenche de felicidade, isso sim é viver! Depois de anos dizendo que voltaria a dançar, finalmente eu voltei, e agora não pretendo sair nunca mais. Dançar é tudo de bom!